Uma noite de insônia

por cesargatto

insonia

Trabalhou duro durante o dia. O suor que escorrera em suas costas, deixando sua camisa levemente grudada em seu corpo, era prova disso.
Observou por um minuto o ponteiro do relógio de parede. Era o último minuto. Pronto. Acabou o expediente.
Enquanto viajava para a cidade dormitório, lembrou que seu tempo livre se limitava a três atividades: tomar banho, jantar e dormir. Porém, esta noite, um detalhe mudara este desfecho.
Chegando em casa, lavou a alma no chuveiro e jantou, optando por deixar a louça suja acumular até o dia de sua folga. À essa altura, seu corpo já implorava pela cama. Então, deitou-se e fechou os olhos. O silêncio era absoluto. Agora, lhe restara aguardar por aquele despercebido momento em que você é desligado do mundo real e viaja para uma experiência de infinitas imaginações reproduzida por um pequeno órgão do corpo humano, denominado de cérebro.
Passaram-se segundos e minutos e o silêncio foi, aos poucos, sendo quebrado pelo tic tac daquele relógio de parede que ecoava pelos cômodos daquele minúsculo apartamento.
Estava cansado, mas não estava com sono. Devido a esse fato, resolveu se levantar e se encaminhar até a sala. Ligou a televisão e oscilou entre os canais, mas nada lhe despertava algum interesse, com exceção daquele canal de conteúdo adulto – que lhe rendera uma visita ao banheiro.
Precisava dormir. Ponto. Esse negócio de abrir e fechar geladeira, se revirar na cama ou contar carneirinhos são tentativas frustradas – lamentou.
O tempo passa e agora faltavam poucos instantes para o sol dar as caras indicando a região leste.
Uma sensação de desespero tomava conta de si ao perceber o nascer do sol se misturar com o barulho do crescente fluxo de carros, que logo fora interrompido pelo despertador – que tocara sem utilidade.
Ele, cansado e mal-humorado, se arruma e se encaminha para o ponto de ônibus rumo à mais um dia de trabalho.
No ponto, passara dois ônibus cheios que o impediam de entrar.
Começou a ficar impaciente e num corajoso ato de rebeldia, resolveu voltar para sua casa. Mas logo ao mudar de ideia, virou-se e observou outro ônibus, aparentemente vazio, estacionar em seu ponto. Correu e conseguiu alcançá-lo. Entrou e, desta vez, não desejou um ‘bom dia’ ao motorista. Não havia pessoas em pé. Seu lugar predileto – o fundo – estava com uma vaga vazia na janela. Sorriu e encaminhou-se até seu destino. Pediu licença e se sentou.
Dormiu.

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