Amores platônicos de metrô

por cesargatto

amores

Ele estava lá dentro. Ela estava lá fora.

Era o mesmo dia, o mesmo trabalho, o mesmo ambiente, o mesmo cheiro, o mesmo chefe, o mesmo café, a mesma marmita, o mesmo suco, os mesmos colegas, a mesma pausa no café da tarde, o mesmo cigarro, a mesma banca de jornal, os mesmos assuntos, os mesmos pedestres, o mesmo ‘até amanhã’, o mesmo caminho, o mesmo metrô. Não. Não era o mesmo metrô. Não mesmo.

Ela estava lá fora, na plataforma, aguardando ansiosamente por aquele enorme objeto imponente, extenso e pesado, cujo singelo e sutil nome: trem. Ele já estava lá dentro, de pé por opção.
O chegar do trem fez com que seus belos cabelos vermelhos voassem como se ela estivesse numa viagem de carro conversível em um ensolarado domingo a tarde.
O trem pára e as portas se abrem para um aglomerado de vidas, histórias que você nunca irá saber, circular em um minúsculo espaço de uma cidade chamada Metrópole.
Ela entra e logo se acomoda em um assento livre. Agora eles estão há três metros de distância rodeados por dezenas de pessoas, cada uma em seu universo particular no silêncio do barulho do trem em movimento.
Ele a observou retirando um livro de sua bolsa. Ficou encantado a ponto de sua distração virar concentração. Não conseguia desviar seu olhar dela.
Ela folheava as páginas enquanto ele sorria imaginando fantasias que… ela de repente o encara. Ele disfarça rapidamente e volta ao seu papel de passageiro comum.
Sua inquieta persistência fez com que seus olhos voltassem mais uma vez para a bela garota da estação de outono. Subitamente ela o encara novamente e num piscar de olhos ele esboça um tímido e desengonçado olhar sedutor, mas ela não percebe. Sorte a dele.

‘Próxima estação: Paraíso’ – disse a locutora do trem.

Ela então se levanta e se prepara para descer em sua estação.
Em questão de segundos ela passa próximo dele o suficiente para fazê-lo sentir o exalar de seu perfume. Seu coração batia tão rápido quanto assistir a uma cobrança de pênalti em final de campeonato e sua enorme vontade de puxar uma conversa com ela era diretamente proporcional com sua falta de assunto.
As portas do trem então se abrem e ela sai. Em um instante de agora ou nunca, ele decide segui-la.
Escada rolante, multidão de pessoas, passos rápidos, turbilhão de emoções e pensamentos, escassez de palavras, a catraca está logo ali, ela ultrapassa e vai embora para sempre.

(momento de frustração)

Sua enorme tristeza foi, aos poucos, se tornando uma breve felicidade, pois sabia que o banheiro de sua casa seria seu próximo destino.

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